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    Nossa ética

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    Um homem da ciência não deve ter desejos nem afeições, somente um mero coração de pedra (Charles Darwin).

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Onde não houver um inimigo, urge criar um!

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Será que já existiu alguém que não tivesse um inimigo? Será que existe alguém que não tenha um inimigo!? Eu acho que não mas, se esse alguém for você, sugiro que repense imediatamente, considerando a possibilidade de adotar um inimigo. Não me refiro a inimigo mortal, mas ao inimigo vital. O inimigo que te deixa aceso, que faz você se sentir vivo e lutar pela vida. Esse inimigo não é necessariamente alguém. Ele pode ser abstrato mas, concreto para você.

São inúmeras as canções que enaltecem o valor da amizade, mas existe um provérbio popular que diz "onde não houver um inimigo, urge criar um". Ou seja, os nossos inimigos também são importantes para cada um de nós e precisamos atribuir-lhes o devido valor. A relação amigo versus inimigo é algo tão sério que a natureza usa essa lógica para o seu funcionamento e regulação. E os exemplos estão bem próximos de nós: o gato é inimigo natural do rato; o cão é inimigo natural do gato, etc. Mas alguém pode dizer que tem em casa um cão e um gato que são amicíssimos. Outra pessoa também dirá que providenciou um gato para eliminar ratos de sua casa e, no entanto, ambos convivem pacificamente. Eu diria que isso não é natural e foi incorporado ao comportamento desses animais que atingiram elevado grau de domesticação. Na selva a coisa é diferente, e se o animal não der o devido valor ao inimigo natural poderá ser eliminado gratuitamente.

Mas alguém pode estar questionando que eu estou estimulando a guerra, a desavença, a violência, enfim, em um mundo já violento e naturalmente hostil. Para essas pessoas, asseguro que não se trata disso. A ilustração que fiz utilizando animais irracionais e a selva foi apenas simbólica. O inimigo que nós, seres humanos e racionais, devemos declarar é também simbólico e serve como catalisador que nos motivará a alcançá-lo e derrotá-lo.

Assim, se você se acha uma pessoa acomodada e que isso te incomoda, então o comodismo é o seu inimigo. Você não deve menosprezar esse inimigo pois ele tem um poder sutil de destruição e destruirá você. Dispense a devida atenção a esse inimigo e elabore as suas melhores estratégias de guerra para destruí-lo.
Se no trabalho você se acha competente, responsável, dedicado e não vem tendo a devida valorização dos colegas e do chefe e isso te incomoda, então a falta de valorização no ambiente de trabalho é seu inimigo. Esse inimigo parece mais robusto que o anterior, pois envolve a sua interação com outras pessoas e em diversos níveis. Nesse caso, a sua estratégia deverá contemplar a derrota do inimigo em etapas que começará com adversários mais próximos até atingir o alvo principal. Não imagino, porém, que você se utilizará de armas nocivas, tipo puxar tapete, desmoralizar, caluniar, fofocar... para derrotar esse inimigo. Afinal, você deverá lembrar dessa vitória com júbilo e não com remorsos.

Se você acha que está acima ou abaixo do peso e isso te incomoda, então você tem um inimigo para dispensar atenção. Defina um prazo para resolver esse problema, trace a estratégia, escolha as melhores armas e mãos à obra.

E aí...lembrou quais são os seus inimigos? Reconhecê-los é o primeiro passo para valorizá-los. Depois é só traçar a estratégia de enfrentamento, pois as armas você já possui.


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A questão ambiental e o diálogo (ou conflito) de gerações.

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Esta postagem é resultado de um e-mail que recebi e não foi a primeira vez! Trata-se de um texto com abordagem ecológica que circula pela rede virtual há muito tempo e que agora resolvi fazer algumas modificações e postá-lo neste site, porque considero que está dentro da nossa linha editorial.

Refere-se a um diálogo (fictício ou real) desenvolvido dentro de um supermercado, envolvendo um profissional operador de caixa e uma cliente idosa: 
  • Caixa: A senhora deveria trazer suas próprias sacolas para as compras, uma vez que sacos de plástico não são amigáveis com o ambiente.
  • Idosa: Desculpe, não havia essa onda verde no meu tempo.
  • Caixa: Esse é exatamente o nosso problema hoje, minha senhora. Sua geração não se preocupou o suficiente com o nosso ambiente.
  • Idosa: Você está certa. Nossa geração não se preocupou adequadamente com o ambiente. Naquela época, as garrafas de leite, refrigerante e cerveja eram devolvidas à loja. A loja por sua vez mandava de volta para a fábrica, onde eram lavadas, esterilizadas e reutilizadas por inúmeras vezes.
  • Idosa: Realmente não nos preocupamos com o ambiente no nosso tempo. Subíamos as escadas, porque não havia escadas rolantes nas lojas e nos escritórios. Caminhávamos até o comércio, ao invés de usar o nosso carro de 300 cavalos de potência a cada vez que precisamos ir a dois quarteirões.
  • Idosa: Mas você está certa. Nós não nos preocupávamos com o ambiente. Até então, as fraldas de bebês eram lavadas, porque não haviam fraldas descartáveis. A secagem das roupas era feita por nós mesmas, não nestas máquinas bamboleantes de 220 volts. A energia solar e eólica é que realmente secavam as nossas roupas. As crianças usavam as roupas que tinham sido de seus irmãos mais velhos, e não roupas sempre novas.
  • Idosa: Realmente você tem razão minha filha... No meu tempo não havia preocupação com o meio ambiente. Naquela época tínhamos somente uma televeisão ou rádio em casa, e não uma televisão em cada compartimento da casa, com tela de tamanho enorme que depois será descartada sabe-se lá como!
  • Idosa: Na cozinha, tínhamos que fazer praticamente tudo com as nossas mãos porque não haviam máquinas elétricas, que fazem tudo por nós. 
  • Idosa: Quando se precisava embrulhar algo frágil para envio pelo correio, usava-se jornal amassado para proteger o objeto e não plastico bolha ou pellets de plástico que duram cinco séculos para começar a degradar.
  • Idosa: Naqueles tempos não se usava um motor a gasolina apenas para cortar a grama do jardim, era utilizado um cortador de grama que exigia trabalho muscular. O exercício físico era extraordinário, semelhante a uma academia, com a vantagem de não precisar usar esteiras que também funcionam a eletricidade.
  • Idosa: Mas você realmente tem razão quando afirma que na minha época não havia preocupação com o ambiente, pois bebíamos água diretamente da fonte quando estávamos com sede, em vez de usar copos plásticos e garrafas pet que agora superlotam os cursos de água e os oceanos.
  • Idosa: Canetas era recarregadas com tinta tantas vezes fossem necessárias ao invés de comprar outra como é feito atualmente. No aparelho de barbear apenas a lâmina era descartada ao invés de jogar fora todo o aparelho só porque a lâmina ficou sem corte.
A idosa segue a explanação dizendo que havia sim uma onda verde naquela época. Os adultos se deslocavam de  bonde ou ônibus e as crianças iam em suas bicicletas ou a pé para a escola. Tínhamos só uma tomada em cada quarto, e não um quadro de tomadas em cada parede para alimentar uma dúzia de aparelhos. E nós não precisávamos de um GPS para receber sinais de satélites a milhas de distância no espaço, só para encontrar a pizzaria mais próxima.

O fato é que a geração atual fala tanto em meio ambiente e em sustentabilidade, mas não quer abrir mão de nada e não pensa em viver um pouco como na minha época, conclui a idosa.

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Contextualizando em Sociobiologia / Biossociologia.

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É com prazer que trago aos frequentadores desse site um texto bastante lúcido e esclarecedor do Prof. André Luiz Ribeiro Ferreira acerca da Sociobiologia / Biossociologia. Num primeiro momento, o som resultante da fusão dessas duas ciências (Ciências Sociais e Ciências Biológicas = Sociobiologia) pode até não ser agradável aos nossos ouvidos, mas devemos nos acostumar pois, embora tarde, a aproximação dos conhecimentos desses dois campos se configura inevitável, para entender e explicar muito do comportamento social humano. A seguir, o texto do Prof. André Ferreira:
Se nós olharmos os campos disciplinares como territórios, podemos dizer que os esforços interdisciplinares têm provocado transformações significativas no mapa das ciências sociais. Novos territórios têm sido construídos a partir de recombinações entre especialidades de disciplinas, principalmente com aquela que é considerada uma especialidade em franca expansão: a biologia evolutiva. Chamamos de abordagens biossociais as recombinações entre especialidades das ciências sociais e a biologia evolutiva. A história da sociologia nos mostra várias tentativas de diálogo com a biologia. Na década de 1920, sociólogos americanos darwinistas confrontavam-se com sociólogos de orientação radicalmente culturalista sobre a importância da biologia para se entender o comportamento social humano. No início da década de 1930, esse confronto havia arrefecido com o triunfo da perspectiva culturalista de Franz Boas e suas alunas Margareth Mead e Ruth Benedict. Um triunfo que foi muito mais ideológico do que científico, conforme nos mostrou Carl Degler em seu livro sobre a história do evolucionismo social. Razões ideológicas para recusar a explicação evolucionista não faltavam visto que ele se apresentava de maneira racista e sexista. Mas a explicação culturalista não se mostrou mais consistente que a perspectiva biossocial dos sociólogos darwinistas, apenas mais politicamente correta.
Nos anos 60, em função do grande avanço teórico experimentado pela biologia evolutiva, novas recombinações biossociais anunciavam a necessidade de introduzir a dimensão biológica para se entender o comportamento social humano. A repercussão dos trabalhos de primatólogos sobre o sistema social de primatas não-humanos e de etólogos sobre a evolução do comportamento social trouxe Darwin de volta para a teoria sociológica. Conforme atestamos na análise que fizemos de dois periódicos tradicionais de sociologia americana, o American Sociological Review e o American Journal of Sociology, são poucos, mas ilustrativos, os artigos e resenhas que desde os anos 60 reclamam da negligência dos sociólogos em relação a variável biológica e chamam atenção para as implicações sociológicas dos trabalhos de etólogos e primatólogos: “biólogos estão falando de sociologia”, alguns resenhistas afirmavam.
Se nos anos 1960 os sociólogos estavam tomando conhecimento dos avanços da ciência biológica, no começo dos anos 1970 as recombinações biossociais que, até então, tinham sido fundamentalmente construções a partir de especialidades da biologia em direção às ciências sociais, passam agora a ter também recombinações de especialidades das ciências sociais em direção à biologia evolutiva. Allan Mazur, Bruce Eckland, Pierre Van Den Berghe, Claude Fisher e Leon Robertson são alguns dos sociólogos envolvidos na tarefa de pensar uma abordagem biossocial, uma sociologia entre espécies, e de discutir as reflexões pioneiras, nesse sentido, dos antropólogos Lionel Tiger e Robin Fox, cujo diálogo com a etologia foi e ainda é duramente criticado.
Em meados da década de 1970, o diálogo incipiente entre a sociologia e as emergentes abordagens biossociais ganhou novos contornos pelo surgimento de uma nova e radical abordagem biossocial, a sociobiologia. O território sociobiológico pode ser demarcado pela aproximação entre os estudos etológicos, métodos da genética de populações e da teoria dos jogos e ecologia. Edward Wilson, autor da obra que representa o marco no surgimento dessa nova disciplina, Sociobiologia: a nova síntese, apresenta-a como uma explicação sistemática dos fundamentos biológicos dos comportamentos sociais. A sociobiologia enquanto abordagem biossocial pode ser vista como um esforço de síntese e de superação das barreiras entre as ciências naturais e as ciências sociais através de uma aproximação biológica dos comportamentos sociais dos animais e dos seres humanos.

Vista como uma tentativa suspeita de absorção das ciências sociais – sociologia e antropologia fundamentalmente - a sociobiologia enfrentou uma virulenta resistência nas ciências sociais. Na sociologia só fez reaparecer a biofobia dos sociólogos. Apenas três resenhas no American Journal of Sociology discutiram a proposta wilsoniana, que provocou amplas discussões na antropologia e psicologia. Mas ao longo dos anos oitenta um grupo de sociólogos começou a se interessar pela agenda de pesquisas aberta pela sociobiologia.Temáticas como a evolução da cooperação e fenômenos como incesto, crime, sexualidade adolescente e o diálogo entre as perspectivas sociológica e evolutiva das diferenças entre os sexos passaram a ter um tratamento biossocial. Ao longo dos anos oitenta e início dos anos noventa assistimos ao aparecimento de novas abordagens biossociais: a ecologia comportamental, a psiquiatria darwinista e a psicologia evolucionista, por exemplo. A agenda de pesquisas da psicologia evolucionista tem atraído alguns sociólogos. O foco dessa nova área de conhecimento é o estudo das características básicas das adaptações psicológicas humanas baseadas no conhecimento existente sobre evolução humana e modelos de pressões seletivas no curso do tempo evolutivo. As adaptações comportamentais e psicológicas que temos hoje foram selecionadas no nosso ambiente de adaptação evolutiva ancestral (AAE).
Os esforços biossociais de alguns sociólogos americanos criaram uma nova especialidade dentro do campo sociológico que vem sendo chamada de biossociologia. Alguns biossociólogos, como Allan Mazur, são declaradamente antievolucionistas enquanto Pierre Van Den Berghe, que no final dos anos setenta e início dos anos oitenta também fazia referências à biossociologia, era evolucionista e considerado um sociobiólogo por trabalhar com a agenda da sociobiologia. Esta diferença na “comunidade de biossociólogos” sugere que há mais resistências entre os sociólogos a uma perspectiva evolutiva do que a um diálogo com a biologia. Survey aplicado por Stephen Sanderson e Lee Ellis em membros da Associação Americana de Sociologia revelou que apenas 3,7% dos sociólogos americanos eram receptivos a sociobiologia e evolucionismo. Na interpretação de seus dados, os pesquisadores descobriram que os respondentes tinham uma visão fortemente antibiológica.
Embora a resistência dos sociólogos a um diálogo com a biologia persista, a criação da subseção Evolução e Sociologia na Associação Americana de Sociologia em 2004 constitui um acontecimento marcante na história da sociologia, pois tem como objetivo fundamental permitir que sociólogos possam legitimamente incorporar evolução e biologia em suas teorias e pesquisas. Talvez possamos dizer que o fato dessa seção ter hoje mais de 300 membros indica que uma nova etapa está sendo inaugurada no diálogo da sociologia com a ciência biológica. Parece que Darwin voltou para ficar.

André Luís Ribeiro Ferreira é graduado e doutor em sociologia pela Universidade de Brasília e professor de sociologia na Universidade Federal de Mato Grosso, campus de Cuiabá.



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